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quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Se eu fosse um peixe…

                                            Domínio da Escrita

                                                      Texto criativo

              Se eu fosse um peixe…

 

Agora que já conheces o Padre António Vieira e a importância que teve no seu tempo na denúncia das injustiças, pondo em destaque os vícios dos homens, desafio-te a imaginar, tendo em conta os teus defeitos e qualidades, que peixe serias, se pertencesses ao auditório do Sermão.

 

Vais redigir um texto criativo.

1. Faz uma pequena introspeção e regista os principais traços da tua personalidade.

2. Elabora um plano, onde, por tópicos, registes as características físicas, psicológicas e morais (qualidades e defeitos) que pensas ter.

3. Pesquisa um peixe que possua características que se adequem à tua personalidade.

4. Redige um texto no qual relaciones as características do peixe com as tuas.

5. Tenta ser criativo, utilizando recursos expressivos como os que encontraste no sermão, a fim de enriquecer e embelezar o teu texto.

6. Tem atenção à construção frásica e ao vocabulário utilizado.

7. Pontua devidamente o teu texto.

8. Deves entregar o teu texto à professora no prazo combinado. 

9. Bom trabalho e diverte-te!

         


Direitos Humanos

 

Domínio da Oralidade

                      DIREITOS HUMANOS

(No âmbito da Cidadania e Desenvolvimento)

 

Em pleno séc. XXI, as palavras do Padre António Vieira continuam atuais, denunciando as injustiças, atacando os poderes dominantes, revelando as grandes desigualdades que ainda imperam no nosso quotidiano. 

Vais preparar em grupo, até quatro elementos, uma apresentação oral em que investigues um tema sobre a violação dos direitos humanos.

 

1. Começa por pesquisar o tema escolhido.

2. Reúne a informação recolhida sobre o tema e organiza-a devidamente.

3. Escolhe uma forma de apresentar oralmente à turma esse tema.

4. Relaciona esse tema com alguma característica presente no Sermão de Santo António (aos Peixes).

5. Gere adequadamente o tempo da apresentação (3 a 5 minutos).

6. Tenta ser criativo na tua apresentação, experimentando formas diferentes de apresentar esse tema.

7. Bom trabalho!



 

sábado, 2 de novembro de 2024

Sermão

 Correção págs. 35 e 41



C. A retoma do conceito predicável justifica-se pelo facto de Vieira mudar de auditório, passando a dirigir-se aos peixes. Logo, explora novamente as funções do «sal», associando-as às do Sermão.

2. Através da apóstrofe «irmãos peixes», o pregador identifica o destinatário do seu sermão – os peixes –, dando continuidade à apresentação dos louvores, através de um discurso alegórico, no qual usa os peixes como exemplo de virtudes ou vícios humanos.
Ao considerar os peixes «irmãos», o pregador estabelece a ligação com os homens, que são, de facto, o seu auditório real e a quem quer (in)diretamente atingir. Constrói-se, assim, a alegoria: os peixes – elementos concretos – são louvados e criticados, porém, no plano abstrato, pretende-se criticar os seres humanos.


3. No quarto parágrafo, Vieira elogia a atitude dos peixes, que vivem afastados dos homens, não se deixando domesticar, considerando que «se não fora natureza era grande prudência» (l. 39), numa clara crítica aos
homens, corrompidos e corruptores. Neste sentido, o episódio do Dilúvio constitui um exemplo de autoridade que comprova a opinião do pregador: só os peixes escaparam ao castigo universal, porque, de todos os animais do ar e da terra, apenas eles se mantiveram puros, longe do homem e da sua corrupção.

3.1 Sugestão: Há a presença do objetivo docere, através das referências a autores clássicos (l. 29), a exemplos bíblicos (l. 50) e Doutores da Igreja (l. 56). Está ainda presente o objetivo movere, através do conselho aos peixes para se manterem afastados dos homens (ll. 40-41), bem como a constatação de que o seu afastamento é a atitude mais prudente (destaque-se o uso do imperativo e do vocativo na linha 58).

4. 
a) 1; 
b) 2; 
c) 3

Página 41

2 «Ah moradores do Maranhão, quanto eu vos pudera agora dizer neste caso! Abri, abri estas entranhas; vede, vede este coração. Mas ah sim, que me não lembrava! Eu não vos prego a vós, prego aos peixes.» (ll. 35-37)
– «Se eu pregara aos homens, e tivera a língua de Santo António, eu os fizera tremer.» (ll. 81-82)


3. 
a) 3; 
b) 2; 
c) 1.





domingo, 27 de outubro de 2024

 Correção pág. 31


 1. O conceito predicável é «Vos estis sal terrae», extraído do NovoTestamento. A metáfora do sal diz respeito ao facto de o sal na época ser usado para conservar os alimentos, não os deixando deteriorar. Assim, também os pregadores deveriam conservar as almas («terra») e preservá-las da corrupção.

2. a)Os pregadores não ensinam a mensagem do Evangelho. b) Os ouvintes recusam a doutrina cristã. c) Os comportamentos dos pregadores não são coerentes com as suas palavras. d) Os ouvintes imitam a condutados pregadores e não as palavras da doutrina, que eles proferem. e) Os pregadores, por vaidade, centram o ato de pregar em si enão na mensagem cristã. f) Os ouvintes não se guiam pelas palavras de Cristo, mas pelos seus impulsos pecaminosos.

3. Como Cristo ensinou, os maus pregadores devem ser desprezados e expulsos da comunidade. Se os ouvintes ignorarem os pregadores, estes devem virar-lhes as costas e pregar aos peixes.

3.1 O ato de pregar aos peixes, enão aos homens, sugere a indignação do orador pelo facto de os seus semelhantes ignorarem apalavra que os pode salvar. Ao dirigir-se aos peixes, Santo António denuncia a inconsciência dos homens, que parecem ter menos sensatez do que os animais irracionais.

4. Santo António é um exemplo para António Vieira não só por ser um grande orador e um homem virtuoso («o zelo da glória divina, que ardia naquele peito», l. 41)como também por ter tido a per-sistência de não deixar de pregar quando os homens o ignoravam. Vieira pretende seguir-lhe as pisadas e continuar a pregar aos colonos do Brasil, apesar de estes não estarem a seguir os seus ensinamentos.

5. O orador dirige-se a Maria (mãe de Cristo) para lhe pedir inspiração. Segundo Vieira, o nome signi-fica «Senhora do mar»; e, como o Sermão tem um tema marinho, é a esta figura que o pregador pede auxílio para a sua tarefa.



 Cap.V do Sermão de Stº António(aos peixes)


Se pretendes conhecer as histórias e as personagens da bíblia referidas neste capítulo, clica nos links.

David e Golias


CAIFÁS

Herodes- Foi durante o seu reinado que nasceu Jesus, segundo a narrativa bíblica. Herodes foi visitado pelos três reis magos, que foram adorar o Rei dos Judeus, Herodes pediu aos magos que seguissem para Belém e que depois voltassem para o informarem se tinham conseguido encontrar a criança; porém, os Magos foram avisados num sonho a seguir outro caminho e não passarem pelo palácio de Herodes.
Quando Herodes percebeu que havia sido enganado pelos magos, ficou furioso e ordenou que fossem mortos todos os meninos com menos de dois anos em Belém e nas redondezas.

Nabucodonosor

Coro dos Escravos Hebreus-Giuseppe Verdi-Ópera Nabuco


Simão Mago




quarta-feira, 23 de outubro de 2024

CAP. IV do Sermão

 

  • Repreensões aos peixes/homens, seguindo o método usado para os louvores dos peixes/homens: do geral para o particular. 

  •         Primeira Repreensão -OS PEIXES COMEM-SE UNS AOS OUTROS 
  •                                              (OS HOMENS COMEM-SE UNS AOS OUTROS) 
  •       Apelo à Observação:
  •                                         Vedes Todo aquele bulir 
  •                                         Todo aquele andar
  •                                         Aquele concorrer e cruzar 
  •                                         Aquele subir e descer
  •                                         Aquele entrar e sair 

  •       TUDO AQUILO é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer.

  •  Valor da enumeração introduzida pela forma verbal “vedes” para caracterizar as ações humanas praticadas na cidade, e que os peixes devem observar.
  •  A enumeração remete para a ideia de movimento, para a agitação motivada pela ambição de alcançar certos objetivos sociais pela parte dos seres humanos.
  •  Nominalizações/ Substantivação do infinitivo verbal.

  •  Alguém que morreu:
  •  Comem-no os herdeiros
  •  Comem-no os testamenteiros 
  • Comem-no os legatários
  • Comem-no os credores
  •  Comem-nos os oficiais dos defuntos e dos ausentes 
  • Come-o o advogado 
  • Come-o o sangrador 
  • Come-o a mulher
  •  Come-o o coveiro 
  • Come-o o tocador de sinos 
  • Comem-no os padres 

  • Algum réu em julgamento 
  • Come-o o meirinho 
  • Come-o o carcereiro 
  • Come-o o escrivão 
  • Come-o o solicitador 
  • Come-o o inquiridor 
  • Come-o o médico 
  • Come-o a testemunha 
  • Come-o o julgador 

  • CONCLUSÃO – Ainda o não comeu a terra e já o tem comido toda a terra Ainda não está executado nem sentenciado e já está comido.
  •      Valor polissémico do verbo “comer”: O verbo “comer” não significa apenas alimentar-se, ingerir alimentos; neste contexto significa usurpar o dinheiro do defunto, explorá-lo.

  •                                                Os peixes / homens comem os mais pequenos.
  •                                                         Os peixes grandes comem os pequenos

  • Os homens comem não só o povo, mas a sua plebe . Os homens não só se comem, mas engolem-nos e devoram-nos . Os homens devoram e comem como se se tratasse de pão.

Aponta-se o terrível defeito que os peixes/homens têm de se comerem (explorarem) uns aos outros devido à sua cobiça desmedida, o que prova a sua crueldade, a sua maldade, a sua injustiça. 
Também se deixam enganar facilmente, movidos pela vaidade.
Comem-se os mortos e Comem-se os vivos:

a um réu comem-no o meirinho, 
o carcereiro, 
o escrivão, 
o solicitador, 
o inquiridor, 
o médico,
a testemunha,
 o julgador

 No último parágrafo, o orador tenta persuadir o auditório a mudar a sua conduta de antropafagia social (vício de se comerem uns aos outros).


  •                       Segunda Repreensão-  A IGNORÂNCIA E CEGUEIRA DOS PEIXES 

  • Caem tão facilmente no engodo da isca . Enganam facilmente os indígenas.

  •                               CONCLUSÃO- Os peixes /homens são muito cegos e ignorantes

terça-feira, 22 de outubro de 2024


              Para leres um  resumo do capítulo III, clica no link.

                                          CAPÍTULO III

 Proposta de correção pág. 47


1.1 As repreensões aos peixes servem, indiretamente, para agitar as consciências dos homens e para os fazer refletir sobre os seus atos, caso não sirvam também para corrigir os seus comportamentos.

2. A circunstância de os peixes se comerem uns aos outros representa, por analogia, o facto de os homens maltratarem os seus semelhantes de diferentes maneiras. São, sobretudo, «os grandes», com mais poder (financeiro, institucional, social, etc.), que oprimem, exploram ou enganamos mais humildes («pequenos»).

3. Através de verbos que remetem para sensações visuais(«Olhai», «vedes»), o orador demonstra a «carnificina» (metafórica) nas cidades, onde os homens se «devoram» numa escala muito maior do que a que se vê entre os verdadeiros canibais do «Sertão». No primeiro caso, a antropofagia é social.


4. A citação bíblica expressa a repulsa do pregador por haver homens que «devoram» outros homens, como «um pedaço de pão». A transcrição do AntigoTestamento confere autoridade ao argumento do pregador e sublinha a condenação deste ato, que o texto sagrado reprova comveemência.

4.1  a) 2; b) 3.

5. Neste passo, censuram-se os homens pela sua ignorância («cegueira»), visto que a sua ambição por honrarias e títulos os levam a arriscar e a perder, por vezes, avida (na guerra).

6. O orador questiona os colonos do Maranhão sobre o modo como se deixam «pescar», ou seja, como são ludibriados. Na sua resposta, o orador acusa aqueles que se deixam levar pela vaidade, valorizando a beleza e a aparência: fascinam-se com os «trapos»(tecidos, roupas) que chegam de Portugal (já fora de moda) e endividam-se para os comprar.

7. Ao contrário de outros homens, Santo António não se deixou enganar nem se envaideceu, apesar de ser uma figura admirável. Desdenhou das futilidades do mundo e abraçou a vida religiosa.

8. Nos dois parágrafos finais deste capítulo, cumprem-se os objetivos do Sermão. A ideia de ensinar (docere) está presente no exemplo de Santo António, que repudiou sempre a vaidade(«Vede o vosso Santo António, que pouco o pôde enganar o mundo com essas vaidades.»).O efeito de deslumbrar(delectare)os ouvintes consegue-se pelo uso emotivo e artístico da linguagem, por exemplo, com recursos expressivos como a metáfora ou a interrogação retórica(«Não é maior ignorância, e maior cegueira deixares-vos enganar, ou deixares-vos tomar pelo beiço com duas tirinhas de pano?»).O efeito de persuadir (movere)alcança-se pela eficácia dos argumentos de Vieira e do exemplo de despojamento de Santo António, levando os ouvintes a mudar os seus comportamentos e, aqui, a desprezar a vaidade.

   Se pretendes ter acesso ao Sermão de Santo António aos Peixes, clica no link.
                                                   

                               Sermão de Santo António aos Peixes 

Excerto CAP.III

      Pudera-se fazer problema: onde há mais pescadores e mais modos e traças, de pescar, se no mar ou na terra? E é certo que na terra. Não quero discorrer por eles, ainda que fora grande consolação para os peixes; baste fazer a comparação com a cana, pois é o instrumento do nosso caso. No mar, pescam-se as canas, na terra pescam as varas (e tanta sorte de varas); pescam as ginetas, pescam as bengalas, pescam os bastões e até os cetros pescam, e pescam mais que todos, porque pescam cidades e reinos inteiros. Pois é possível que pescando os homens cousas de tanto peso, lhes não trema a mão e o braço?! 

Cap. III do Sermão de Santo António aos Peixes



Paralelismo anafórico -  Pescar simbólico: “ No mar, pescam as canas, na terra pescam as varas (…), pescam as ginetas, pescam as bengalas, pescam os bastões e até os cetros pescam, e pescam mais que todos, porque pescam Cidades e Reinos inteiros.”

Gradação crescente ou ascendente- Varas - juízes / ginetas -militares / bengalas - comerciantes / bastões - nobres / cetros - reis.

 O Torpedo faz tremer o braço do pescador devido a uma descarga elétrica. Na terra, os juízes, os militares, os comerciantes, os nobres e os reis (isto é, todos)“pescam” muito, usurpam/tiram proveito dos outros, mas não “tremem”, ou seja, não manifestam qualquer arrependimento, logo não dão indícios de pretenderem converter-se.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

 Se quiseres ouvir o Sermão dito de forma admirável pelo grande poeta Ary dos Santos, clica no link.

 Sermão de Santo António aos Peixes




quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Capítulo III

Louvores em particular
• Curava a cegueira
• O coração expulsa
os demónios
PEIXE DE
TOBIAS
"o fel era bom para curar da ce...Louvores em particular
• tão pequeno no corpo e
tão grande na força e no
poder;
RÉMORA
"(...) se se pega ao leme de uma na...

Louvores em particular
• descarga elétrica que faz
tremer o braço do
pescador;
TORPEDO
"Está o pescador com a cana na mão,...Louvores em particular
• dois olhos voltados para cima para
se vigiarem das aves
• dois olhos voltados para baixo para
se ...

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Polvo


terça-feira, 8 de novembro de 2016

Voadores


Pegadores


Roncador


sábado, 6 de dezembro de 2014

Se eu fosse um peixe... Peixe Mandarim (exemplo)

      Começo por apresentar o meu retrato psicológico e alguns dos meus traços físicos, capazes de compor a minha existência enquanto ser humano.
     “O meu nome é ...; um nome bastante vulgar, mas que contém um grande valor para mim.” …        Poderia continuar a citar pequenas frases do meu autorretrato, mas todos sabemos que essa matéria não interessa aos peixes. Por isso, serei um pouco mais objetiva, dizendo que me observo como uma adolescente dentro dos parâmetros normais, com uma personalidade bastante forte, mas também com alguns defeitos. Como diria o Padre António Vieira, no Sermão de Santo António aos Peixes, “Ou é porque o sal não salga, ou é porque a terra não se deixa salgar”, querendo com isto transmitir a imagem de que o homem tem imensos defeitos que merecem a sua crítica. E de certa maneira, é o que eu mostro perante os vossos olhos, com estas palavras que simbolizam os meus defeitos, tais com a teimosia, impaciência e o perfeccionismo desmedido. Também o querer lutar demasiado por certos direitos, por vezes, leva-me a cometer certos erros, que não considero dignos. Mas se o meu ser apenas contemplasse defeitos, jamais me poderia comparar a um peixe, para conseguir alguns dos louvores que também o padre lhes apontou, criticando a não existência dos mesmos nos homens. E por essa razão, digo-vos de igual modo, certas qualidades que na minha opinião, também merecem simples louvores. Perguntais quais são? Então, acho que sou uma pessoa bastante persistente que nunca desiste dos seus objetivos, colocando muitas vezes a coragem à frente do caminho que percorro nesta vida, onde é constantemente necessário saber ultrapassar determinados obstáculos. Sou um ser sincero e honesto, simpático e amigável, e também um bom ouvinte.
     Posto isto, chamo à descrição o Peixe-Mandarim. E podereis questionar o porquê desta analogia… mas tal resposta mostrarei já de seguida, com a análise das suas características gerais.
     Começando por comparar a sua adaptação ao clima tropical e a meios de água salgada. Eu também me considero uma pessoa que se adapta facilmente a qualquer grupo de amigos, pois sou extrovertida e capaz de me relacionar em ambientes onde exista variedade de personalidades. Ambos somos pequenos, sendo ele mais do que eu (mede cerca de seis a dez centímetros de comprimento). Claro que também temos diferenças que existem no facto de ele viver escondido em fendas nos recifes de coral e alimentar-se de pequenos animais marinhos que passam próximos do seu esconderijo conseguindo apenas conviver com indivíduos da mesma espécie.
     Nesse aspeto, acho que somos bastante diferentes, dado que eu não consigo viver isolado e sem convívio com pessoas que diferem nas suas personalidades. Mas pronto, existem outros traços que têm uma certa parecença tal como a sua timidez e exuberância (embora a minha não seja tão elevada).
     Este peixe apresenta um revestimento onde não habitam escamas, isto é, possui uma pele suficientemente grossa, capaz de o proteger de todos os perigos, tais como pontas agudas presentes nos recifes de coral. Também possui cores bastante fortes, brilhantes e apelativas, que constroem um mecanismo de auto defesa em relação aos predadores. Este mecanismo completa-se com os seus longos espinhos das costas que, ao menor sinal de perigo, são eriçados fazendo-o parecer maior do que realmente é.
     É estranho pensar acerca da presença de uma possível analogia, mas vejamos: eu sou um pouco tímida em certas circunstâncias, mas quando o perigo espreita, eu enfrento-o com toda a coragem e defendo a minha posição em todos os sentidos. Em relação à sua pele grossa que o protege de certos perigos, também o meu caráter é suficientemente forte e capaz de sobreviver a quase todos os perigos e maldades que me são apresentados.
     Também este peixe tem uma característica que o faz estar em permanente alerta em relação aos predadores do seu meio: os seus olhos projetados para fora como grandes saliências. Tal como os meus, que também estão em constante alerta, tendo em conta não só os perigos mas também todas as emoções que com eles consigo transmitir. Existe ainda uma particularidade neles: o facto de não possuírem pálpebras nem canais lacrimais, a água salgada é a responsável pela limpeza dos seus olhos. No que diz respeito a este assunto, acho que existe uma certa comparação tendo por base o facto de todo o ser humano aprender com os seus erros e, tal correção se realizar somente quando os nossos próprios olhos enxergam a realidade e percebem que algo não está correto e é necessário mudar, isto é, limpar a mente de todos os defeitos apresentados, e procurar uma nova resposta na realidade instituída.
     E pronto, não somos almas gémeas, mas continuo com a ideia de que “Se eu fosse um peixe… seria o Peixe-Mandarim”!





quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Carta ao Padre António Vieira



Xavier Pedro Henriques
Rua de S. António, 13, R/C
244-1654, LEIRIA
PORTUGAL                                                                                                                                     
                    
Rvmo. Pe.    António Vieira
                                                                                                                    65010  SÃO LUÍS
Estado do Maranhão
                                                                                                                                                                         BRASIL


                                                                          

                                                                                       Leiria, 27 de outubro de 2014


Reverendo Senhor Padre,

Venho por este meio fazer chegar a V. Rvma.  informação acerca dos vícios e defeitos da sociedade contemporânea.
Como bem sabeis, o Homem sempre preferiu satisfazer os seus apetites do que servir a Cristo e, pela mesma razão é que a Terra ainda  não se deixa salgar. É certo que muitas vezes, ainda mais agora no meu tempo, existem cada vez mais provas do contrário, que o sal não salga, padres que preferem pregar como lhes apetece, servindo os seus interesses, e que não praticam ou seguem a doutrina de Cristo. O Homem não muda, é o que deveis estar a pensar, mas muita coisa tenho  feito no sentido de reaver aquele Homem culto que servia e adorava a Cristo, louvando-O e seguindo os Seus ensinamentos. Mesmo assim, o Homem continua a não escutar a palavra de Deus, a não seguir os Seus bons exemplos e a não aprender com os mesmos. Além disso, continuam cegos, ou porque não querem ver, ou porque não os deixam ver. Precisam de abrir as entranhas destes novos pregadores e ver o seu coração ainda puro, mas já cansado de proferir ensinamentos que ninguém põe em prática. Quem vai à santa missa, ou é porque está doente, ou é para visitar os amigos, ou é porque quer mostrar a todos as suas novas vestes.
Já ninguém sabe o que é a fé, o que é o amor. Apenas lhes interessa meras atrações, dinheiro e uma vida repleta de prazer, viagens e negócios. Além do mais, nem têm tempo, pois passam a vida num correr de um lado para o outro, num andar de praça em praça, num subir e descer, numa tentativa de fazerem tudo sem nada fazerem. “Quem tudo quer tudo perde”, mas enquanto uns têm e nada têm, outros nada têm e tudo têm. Isto tudo porque o dinheiro é um mero material ao qual nós, homens, nos prendemos, e porque o amor e a fé são aquilo que realmente importa. Pois, como já deveis ter percebido, os homens continuam a comer-se uns aos outros, e mais do que isso, os grandes comem os pequenos. Quem é rico, mais rico fica, e quem é pobre, mais pobre fica. O mesmo podemos dizer dos fracos e inocentes, que são comidos todos os dias, tal como é o pão comido todos os dias pelos pobres.
Concluindo, o Homem continua  igual ao Homem para quem vós pregastes o sermão naquele dia 13 de junho de 1654, na cidade de São Luís do Maranhão.
Peço-vos que abençoeis estes novos pregadores, para que se abram ao auditório, para que o mesmo veja os novos corações.
Antecipadamente grato pela atenção,
apresento os meus mais respeitosos cumprimentos.

Xavier Henriques

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Sermão de Santo António aos Peixes

O Sermão de Santo António aos Peixes foi proferido na cidade de São Luís do Maranhão em 1654.

Este sermão (alegórico) foi pregado três dias antes de Padre António Vieira embarcar ocultamente (a furto) para Portugal, para obter uma legislação justa para os índios.

O Sermão de Santo António aos Peixes constitui um documento da surpreendente imaginação, habilidade oratória e poder satírico do Pe. António Vieira.

Todo o sermão é uma alegoria, porque os peixes são a materialização dos vícios dos homens.

Estrutura do Sermão:

 Estrutura Externa – a obra está estruturada em seis capítulos.
 Estrutura Interna – Apresenta uma estrutura tripartida:
a) Exórdio (Cap. I)– onde é feita uma referência sumária do assunto que
se vai tratar; (conceito predicável)
b) Exposição/Confirmação (Cap. II até V)– constitui o corpo da obra e
engloba quatro capítulos.
Na exposição, o autor faz referência às obrigações do sal, indica as
virtudes/louvores em geral dos peixes e apresenta uma crítica aos
Homens;
Na confirmação analisa os louvores em particular e começa as
repreensões: censura a prepotência dos colonos, critica a vaidade, os
parasitas, os ambiciosos, os hipócritas e os traidores;
c) Peroração (Cap. VI)– constitui a parte final do discurso. Aqui, o autor
faz uma conclusão, apresentando uma síntese dos melhores
argumentos usados na segunda parte.

O orador deverá cumprir as regras da eloquência:
docere, isto é, ensinar, explicando e expondo argumentos;
delectare, isto é, agradar, deleitar, captando o agrado e a atenção do auditório, de modo a não causar aborrecimento;
movere, isto é, comover, apelando às emoções e tentando "tocar" os sentimentos do auditório.

Exórdio - Capítulo 1

Neste primeiro capítulo, mais conhecido por exórdio (a introdução), o Padre António Vieira expõe o tema e as questões centrais que vai defender, bem como o plano estrutural do seu sermão.
Vieira, a partir do conceito predicável “Vós sois o sal da terra”, em analogia com “Santo António [que] foi sal da terra e foi sal do mar”, visa criticar a humanidade que está cada vez mais corrupta. Quando ele sugere que a culpa se encontra no sal refere-se aos pregadores que proferem uma coisa e depois agem de outra forma, ou então afirma que a culpa se encontra na terra, referindo-se assim aos ouvintes uma vez que estes não ligam às palavras da verdadeira doutrina.

Capítulo II – Louvor das virtudes dos peixes, em geral
Neste capítulo serão criticados os homens por analogia com os peixes, como está expresso nesta passagem irónica: “Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam”. Vieira deixa bem claro que este sermão é uma alegoria, referindo-se frequentemente aos homens. Os peixes ora serão, metaforicamente, os índios ora os colonos.
Neste capítulo, pois, o pregador pretende repreender os vícios dos homens, opostos às virtudes dos peixes.


Louvores em Geral 
• São obedientes (obediência), ouvem e não falam
"aquela obediência, com que chamados acudistes todos pela honra de vosso Criador e Senhor"
"ouvem e não falam"
• Foram os primeiros animais a serem criados
"vós fostes os primeiros que Deus criou"
• São os mais numerosos e os mais volumosos
"entre todos os animais do mundo, os peixes são os mais e os maiores"
• Não são domesticáveis.
"só eles entre todos os animais não se domam nem domesticam"


Capítulo III – Louvor das virtudes dos peixes, em particular

No capítulo III (considerado o 1º momento da confirmação), Vieira continua a elogiar os peixes, mas desta vez os seus louvores aos peixes são individualizados, visam peixes em particular.
Vieira utiliza quatro tipo de peixes para comprovar a relação entre o homem e o divino.
O Santo Peixe de Tobias, peixe bíblico, grande em tamanho, possui nas suas entranhas um fel que cura da cegueira e um coração que expulsa os demónios («o fel era bom para curar da cegueira», «o coração para lançar fora os demónios» ); representa as virtudes interiores, a bondade, e o poder purificador da palavra de Deus. Crítica aos homens- critica a cegueira de quem não quer ver o mal e não se afasta deste.

A Rémora, peixe tão pequeno no corpo e tão grande na força e no poder, quando se prende a um navio tem força razoável para a segurar ou determinar o seu rumo («se se pega ao leme de uma nau da Índia […] a prende e a amarra mais que as mesma âncoras, sem se poder mover, nem ir por diante.»); expressa a força ou o poder da palavra dos pregadores: a língua de S. António era uma rémora na terra – tinha força para dominar as paixões humanas como a soberba, a vingança, a cobiça e a sensualidade (as quatro naus do sermão).
Crítica aos homens- fraqueza do ser humano na cedência às  paixões que se opõem à razão, pois na apresenta a força suficiente para resistir às tentações.

O Torpedo origina descargas elétricas que acabam por fazer oscilar o braço do pecador («Está o pescador com a cana na mão, o anzol no fundo e a boia sobre a água, e em lhe picando na isca o torpedo, começa a lhe tremer o braço. Pode haver maior, mais breve e mais admirável efeito?»); simboliza o poder da palavra de Deus, em converter, em fazer o ser humano arrepender-se.
Crítica aos homens- não lhes treme a consciência perante o mal que fazem, pois não se perturbam perante o poder da palavra de Deus.

O Quatro-olhos contém dois pares de olhos, uns para cima e outros para baixo («e como têm inimigos no mar e inimigos no ar, dobrou-lhes a natureza as sentinelas e deu-lhes dois olhos, que direitamente olhassem para cima, para se vigiarem das aves, e outros dois que direitamente olhassem para baixo, para se vigiarem dos peixes.»); simbolizam a visão, a iluminação: o cristão tem o dever de tirar os olhos da vaidade terrena, olhando para o céu, e sem esquecer o inferno.
Crítica aos homens- não pretendem distinguir o bem do mal, pois deixam-se levar pela vaidade.

Síntese
Todos estes elogios que o Padre António Vieira tece aos peixes são o contraponto dos defeitos dos homens, evidenciando assim os vícios destes. (Raciocínio por contraste)




Capítulo IV – Repreensão dos vícios dos peixes, em geral
Neste capítulo, Vieira repreende os peixes em geral, criticando neles comportamentos condenáveis nos homens. (Raciocínio por semelhança)
O pregador confirma a tese de que os homens se comem uns aos outros, dando o exemplo dos peixes.
- «[...] é que vos comedes uns aos outros.»
- «Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos.»

- «Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.»

Capítulo V- Reprensão dos vícios dos peixes, em particular

De carácter particular, Padre António Vieira usa quatro exemplos de peixes que se referem a
tipos comportamentais.

O roncador que simboliza os arrogantes,
o pegador, que simboliza os oportunistas,
o voador, que simboliza os ambiciosos e o pior de todos,
o polvo, que simboliza o traidor e o hipócrita. Este último, tem uma aparência de santo e manso e um ar inofensivo, mas na essência é traiçoeiro e maldoso, é hipócrita e faz-se de amigo dos outros e no fim “abraça-os”. Neste capítulo são usados os exemplos de São Pedro, Sto Ambrósio, São Basílio e
o Gigante Golias.

Capítulo VI- Peroração

Por fim, a despedida, no capítulo VI, onde o orador retoma os pregadores de que falava no
conceito predicável, servindo-se dele próprio como exemplo alegando que não estava a
cumprir a sua função. Alega também que ele (homens) e os peixes, nunca vão chegar ao
sacrifício final, uma vez que os peixes já vão mortos e os homens vão mortos de espírito.
Padre António Vieira diz que a irracionalidade, a inconsciência e o instinto dos peixes, são
melhores do que a racionalidade, o livre arbítrio, a consciência, o entendimento e a vontade
do homem.
Conclui-se assim, fazendo um apelo aos ouvintes e louvando-se a Deus, tornando esta última
parte do sermão um pouco mais familiar, para que se estabeleça de novo a proximidade entre
os ouvintes e o orador.

Este sermão teve como ouvintes os colonos do Maranhão e tem grande coesão e coerência 
textual graças à utilização de recursos estilísticos, articuladores do discurso e argumentos de
autoridade e analógicos para validar e confirmar os testemunhos narrados. Todo o sermão é
alegórico, uma vez que são utilizados os peixes como figuras concretas para a crítica aos
homens.
O sermão é,pois, todo ele feito de alegorias, simbolizando os vícios dos colonos do Brasil ("peixes grandes que comem os pequenos") em vários peixes.

O sermão, o texto de que hoje dispomos, é apenas uma das partes que compunham o espetáculo teatral da pregação, onde intervinham outras unidades significativas como o espaço cénico, a iluminação, a marcação, os gestos, as entoações. A própria arquitetura barroca adotou o modelo jesuítico de igreja-salão, sem naves laterais para que o púlpito pudesse ser visto.


O estilo de Padre António Vieira remete para uma vertente medieval que assenta na alegoria, mas também para processos concetistas que o celebraram como um tecelão barroco, cheio de perícia em desfiar os textos bíblicos, para compor um texto novo. No entanto, Padre António Vieira tece este discurso velho, moldando-o às suas ideias, brincando com as palavras.

Para esse desempenho usou:
os polissíndetos;
as comparações;
as anástrofes;
as exclamações;
os trocadilhos;
os paralelismos anafóricos;
as antíteses;
a anáfora;
as gradações;
as interrogações retóricas;
...

O Pe António Vieira é considerado o maior orador sacro português e domina todo o século XVII pela sua personalidade vigorosa que capta a atenção dos ouvintes.

Destaca-se, ainda, pela coragem evidenciada na luta, através das palavras, contra a exploração dos povos oprimidos e pelo patriotismo evidenciado na luta pela manutenção da independência nacional, numa época instável como foi a da Restauração.

É marcante, também, o seu anticonvencionalismo e ousadia ao combater a organização social e religiosa mais poderosa de Portugal – O Tribunal do Santo Ofício – cujas práticas anti-cristãs denuncia, independentemente dos perigos a que se expôs e do sofrimento que tais atitudes lhe causaram.

 Razão do título do Sermão de Sto António aos Peixes:

O sermão inspira-se na lenda medieval segundo a qual Santo António, numa das pregações destinadas a emendar o comportamento dos homens, decide falar aos peixes ao constatar que os homens não lhe prestam atenção. Compreensivos e atentos, os peixes levantam as cabeças à superfície das águas, comprovando a força da palavra do santo.

António Vieira imitá-lo-á visto que também não é ouvido pelos colonos do Maranhão que exploram os ameríndios e os escravos negros; à semelhança do santo que tanto venera, falará aos “peixes” – alegoria dos colonos. Deste modo pode criticá-los sem temer represálias.

Funções do sermão:

O sermão tem uma missão social (salvar os ameríndios da cobiça e exploração);
 é também um instrumento de intervenção na vida política do país;
tem também uma missão espiritual: divulgar a palavra de Cristo, o Evangelho e histórias de santos como exemplos de condutas a imitar.

 Intencionalidade comunicativa do pregador:

O sermão é um texto que pretende:

a) ensinar através do recurso a citações bíblicas, dados da História natural, exemplos da sabedoria popular. Tem, portanto, uma função informativa (informa sobre diversos saberes)

b) agradar aos ouvintes através do recurso a frases exclamativas, interrogações retóricas, gradações, apóstrofes, alegorias. Tem uma função emotiva (desperta emoções nos ouvintes)

c) Persuadir os ouvintes através da argumentação por meio do confronto com a Bíblia, emprego do modo imperativo, do vocativo e interrogações retóricas. Tem uma função apelativa (interpela os ouvintes, obrigando-os a reflectir no que é dito)

d) intervir na sociedade portuguesa da sua época.