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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Morreu Cesário Verde



















            



 O DIA EM QUE CESÁRIO VERDE MORREU

 Em 1886, Lisboa era uma cidade muito diferente do que tinha sido trinta anos antes.  A sua população, 300 000 habitantes, tinha dobrado.  Do campo, haviam chegado milhares, os homens primeiro, para trabalhar como estivadores ou pedreiros, a família depois.  Em parte devido à pressão dos recém-chegados, em parte porque o alargamento dos limites urbanos era uma forma de obter novas receitas para o Estado, a cidade alastrara.
Ao lado de uma indústria incipiente, visível sobretudo para os lados de Xabregas e Alcântara, a cintura saloia espraiava-se por todo o lado, Mafra, Benfica, Lumiar.  Os laços ao campo permaneciam fortes.  A infância rural deixava saudades que não desapareciam facilmente.
 Com os seus espaços apertados e o tempo normalizado, a cidade parecia asfixiante aos novos habitantes.  Não surpreende pois que, nos quentes dias de Verão, o povo deixasse a capital, com cestos repletos de talhadas de melão, damascos e pão-de-ló, a caminho das hortas.  Para os que ficavam, havia os bailes "campestres", sob as parreirinhas dos cafés e das sociedades recreativas, além da música ao ar livre nos coretos pintados de fresco.
 No dia 18 de Julho de 1886, um domingo, não faltavam distrações.  No Beco das Olarias, o "baile campestre" era acompanhado por uma banda tocando um "variadíssimo repertório"; na sociedade Recreio Operário, na Rua dos Remédios, à Lapa, a banda "abrilhantava" o baile proletário: na Nova Rossini, na Rua do Sol, ao Rato, entre o bazar e o lanche, a filarmónica dos Alunos de Guilherme Cossoul deliciava os ouvintes pequenos-burgueses.
Nos Jardins da Estrela, de S. Pedro de Alcântara e no Largo de Belém, entre as 5 e as 7 da tarde, os domingueiros podiam ouvir belos concertos ao ar livre.  De entre as solicitações do dia, a mais popular era certamente a tourada que, nessa tarde, se realizaria no Campo de Santana, e na qual tomavam parte os irmãos Roberto e o conhecido cavaleiro Alfredo Tinoco.  Os espectáculos nocturnos também eram aliciantes.  Na Esplanada dos Recreios, poder-se-ia ver um bruxo que fazia truques de prestidigitação ou, no Teatro Chalet, a peça O Duque de Vizela.

Em 1886, já tinham sido introduzidos em Lisboa algumas das inovações que facilitavam a vida urbana: em 1848, tinham aparecido os primeiros candeeiros a gás e, em 1878, haviam sido instalados, no Chiado, seis candeeiros eléctricos.  Não se pense contudo que esses melhoramentos se propagaram rapidamente.  Grande parte das ruas da cidade eram de terra, malcheirosas e escuras.  A muitas das suas vielas e escadinhas a civilização não chegara.
 A 18 de Julho, um grupo de habitantes de Alfama pedia insistentemente à Câmara de Lisboa que mandasse regar as ruas do bairro, pois o vento estava a levantar enormes ondas de poeira, que invadiam casas e lojas.
Nos bairros antigos, a higiene era deplorável.  Com traseiras, pátios e quintais apinhados de galinhas, coelhos e porcos, as casas estavam infestadas de parasitas.  Apesar de a recente captação do rio Alviela ter permitido instalar uma rede de distribuição de água a domicílio, o benefício chegava a poucas casas.
Nos mercados, as condições sanitárias eram péssimas, fazendo com que muitos dos géneros consumidos pelas classes populares estivessem estragados.  Os fiscais tentavam pôr cobro à situação, mas não chegavam para as encomendas.  No mercado central, a 17 de Julho, tinham sido inutilizados, como impróprios para consumo, 81 pescadas, 76 peixe-espadas e l 200 carapaus: era uma gota no oceano,
Com os seus pregões e cheiros, gritos e correrias, a vida nestes bairros era animada.  Até certo ponto, o bairro reproduzia a aldeia originária, com as suas redes de lealdades e rivalidades.  Muita gente nascia e morria ali, sem ter saído dos seus limites estreitos: era ali que trabalhava, namorava e se zangava.  Como em todos os universos fechados, as brigas eram frequentes, assumindo por vezes um carácter violento.
A l 8 de Julho, um casal da Mouraria fora atacado, na cama, por uma vizinha que brandindo um garfo os feriu de tal forma que tiveram de ser conduzidos ao Hospital de S. José.  Um pouco acima, António Martins socava barbaramente a sua amante Maria Engrácia; noutro ponto da cidade, o padeiro José Dias da Silva era preso por arremessar à amante, Ana de Jesus, uma bilha que lhe despedaçou a cara.  Certas zonas da cidade, depois do sol posto, Alfama, a Mouraria ou o Bairro Alto, eram particularmente perigosas.  O policiamento era ineficaz.  Só os criminosos mais azarentos, como o Bexiga, acabavam presos.
O povo de Lisboa era uma amálgama muito particular.  Juntava gente variada, do operário fabril ao descarregador, da criada ao artesão, do pequeno funcionário ao caixeiro, Formavam a massa dos "pequenos", da "ralé", da "canalha", que ganhava o pão com o suor do seu rosto.  Se entre o pequeno lojista e o operário havia um mundo de diferenças, estas tendiam a esbater-se quando os poderosos entravam em cena.  Era contra os da "alta" que os "pequenos" se definiam.

Cidade portuária, a zona ribeirinha era uma das mais activas de Lisboa.  Pelas docas de Alcântara lhe chegava o carvão que consumia nas suas fábricas; pela de Santos, as mercadorias coloniais; pela do Cais do Sodré, os melões e o vinho de Almeirim, o trigo do Alentejo, as melancias de Setúbal, o peixe que abastecia a cidade.  Fragateiros, varinas e descarregadores povoavam este cenário luminoso e febril.  Todos os dias atracavam grandes navios transatlânticos, despejando e recolhendo mercadorias.  No sábado, o movimento da alfândega fora, como de costume, intenso: para o Maranhâo, seguira, no Bragança, um carregamento de feijão; para Hamburgo, no Davis, l 71 fardos de cortiça; para Liverpool, no Ter, 147 caixas de maçãs, 630 caixas de cebolas e l 7 caixas de tomates; para Bordeaux, no Mokla, 226 caixas de sardinhas.  De Newcastle, a bordo do Catarino Richard, chegara um grande carregamento de carvão.

Os contrastes entre ricos e pobres eram enormes. É verdade que os milionários portugueses eram patéticos quando comparados com os seus parceiros europeus, mas em face da miséria indígena qualquer ser com o mínimo de sensibilidade se chocaria.
No centro da cidade, entre portais e vãos de escada, amontoavam-se cegos, estropiados, crianças abandonadas e velhos paralíticos.  Para muitos, os pobres faziam parte da ordem do Universo, e a injustiça social de que eram vítimas era tão natural como o facto de um sobreiro não ter nascido um pinheiro, como mais tarde escreveria Fernando Pessoa.
 Os miseráveis eram objectos que Deus colocara no caminho dos ricos para que estes pudessem exercer a caridade, nas festas e nos bazares variados, como o que, na véspera, tivera lugar no Passeio da Estrela, durante o qual as senhoras da Lapa leiloaram entre si os despojos oferecidos.
Mas não havia caridade que bastasse para este caudal imenso de costureiras pálidas e tísicas, artesãos desempregados de olhar rebelde, vendedeiras esmagados pelo peso da carga, velhas abandonadas que falavam sozinhas, coxos, cegos e manetas.
Nesse Verão de 1886, os albergues noturnos abarrotavam de gente suja e esfarrapada que, aos milhares, ali ia em busca de uma sopa e de uma enxerga.  Os jornais transmitem os gritos dos que viviam aflições: a Assunção da Glória, viúva, moradora na Trav. de S. João de Deus, apelava ao público para que lhe desse qualquer coisinha, pois não tinha família que lhe valesse; a Amália Vidal, moradora na Rua da Mouraria, pedia a uma alma caridosa que lhe pagasse o quarto escuro donde estava em risco de ser despejada.  Havia outros recursos, mas eram mais arriscados: nesse dia, o marítimo José Maria fora preso, por ter roubado dois gorazes do mercado da 24 de Julho.

Os trabalhadores ganhavam salários irrisórios e estavam sempre à beira do desemprego.  Alimentavam-se, ano após ano, a pão, sopa e batatas, uma ementa insuficiente que ajuda a explicar as altíssimas taxas de mortalidade de Lisboa e do Porto.  As doenças que mais mortes causavam eram a tuberculose pulmonar e as pneumonias.
 Havia quem não aguentasse esperar.Luísa, criada de servir, atirava-se, na tarde de 18 de Julho, de um terceiro andar na Rua do Oiro para a rua após ter sido despedida; o cozinheiro Cândido da Silva lançava-se ao Tejo.

As .condições de trabalho eram atrozes: a duração do dia de trabalho era longuíssima e a segurança nas oficinas inexistente.  Todos os dias se verificavam acidentes: fiandeiras que ficavam sem dedos, pedreiros que caíam de andaimes, vidreiros que arruinavam os pulmões, mineiros que ficavam soterrados.
A 18 de Julho, quando trabalhava na construção de uma linha de caminho-de-ferro. Sebastião Pereira, de 30 anos, fora subitamente esmagado por um penedo que se soltara, enquanto Manuel  caía de uma tábua durante um descarregamento no cais.  Perante este espectáculo, até os mais acérrimos defensores do liberalismo foram forçados a vergar.  A ideia de que o Estado tinha de intervir para proteger os mais fracos foi-se espalhando.

 Quem, a 19  de Julho de 1886, abrisse, de manhã, a janela, perceberia que o dia iria estar quente.  No Norte trovejara, rnas nos arrabaldes da capital, entre as ribeiras e os montes, o clima estava ameno.  Nos pomares, cantavam os pintarroxos, nos prados as vacas leiteiras pastavam pachorrentamente e, entre pedregulhos luzidios, as mulheres saloios preparavam-se para lavar as últimas peças de roupa que, no dia seguinte, teriam de entregar nas casas ricas da capital.  Famílias aperaltadas partiam para a missa dominical.  O silêncio era apenas entrecortado pelas chocas da manada e pelos carros de bois que desciam do outeiro.  Foi no meio deste esplendor que, às 5h. da manhã, com os pulmões destruídos pela tuberculose, "sem querer, aflito e atónito", morreu José Joaquim Cesário Verde.  Tinha 31 anos e vira chegar o fim "como um medonho muro".
                                                         






segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Frei Luís de Sousa-Texto dramático

É constituído por:

Texto principal- composto pelas falas dos actores que é ouvido pelos espectadores;

Diálogo
Monólogo
Apartes

Texto secundário (Didascálias) que se destina ao leitor, ao encenador da peça ou aos actores.
É composto:

pela listagem inicial das personagens;
pela indicação do nome das personagens no início de cada fala;
pelas informações sobre a estrutura externa da peça (divisão em actos, cenas ou quadros);
pelas indicações sobre o cenário e guarda roupa das personagens;
pelas indicações sobre a movimentação das personagens em palco, as atitudes que devem tomar, os gestos que devem fazer ou a entoação de voz com que devem proferir as palavras;



 Estrutura externa atos, correspondentes à mutação de cenários, e cenas, equivalentes à mudança de personagens em cena.

 Estrutura interna:

Exposição – apresentação das personagens e dos antecedentes da acção.
Conflito – conjunto de peripécias que fazem a acção progredir.
Desenlace – desfecho da acção dramática.


Espaço – o espaço cénico é caracterizado nas didascálias onde surgem indicações sobre pormenores do cenário, efeitos de luz e som. Coexistem normalmente dois tipos de espaço:

Espaço representado – constituído pelos cenários onde se desenrola a acção e que equivalem ao espaço físico que se pretende recriar em palco.

Espaço aludido – corresponde às referências a outros espaços que não o representado.



Tempo da representação – duração do conflito em palco;
Tempo da acção ou da história – o(s) ano(s) ou a época em que se desenrola o conflito dramático;




Frei Luís de Sousa-Atmosfera


Há ao longo da intriga dramática uma atmosfera psicológica do sebastianismo com a crença no regresso do monarca desaparecido e a crença no regresso da liberdade.

Telmo Pais é quem melhor alimenta estas crenças, mas Maria mostra-se a sua melhor seguidora.

Percebe-se também uma atmosfera de superstição, nomeadamente desenvolvida em redor de D. Madalena.

Tal como na tragédia clássica, também o fatalismo é uma presença constante. O destino acompanha todos os momentos da vida das personagens, apresentando-se como uma força que as arrasta de forma cega para a desgraça. É ele que não deixa que a felicidade daquela família possa durar muito.

Frei Luís de Sousa-Simbologia

Vários elementos estão carregados de simbologia, muitas vezes a pressagiar o desenrolar da ação e a desgraça das personagens. Apenas como referência, podemos encontrar algumas situações e dados simbólicos:

- A leitura dos versos de Camões referem-se ao trágico fim dos amores de D. Inês de Castro que, como D. Madalena, também vivia uma felicidade aparente quando a desgraça se abateu.

- O tempo dos principais momentos da acção sugerem o dia aziago: sexta-feira, fim da tarde e noite (Acto I), sexta-feira, tarde (Acto II), sexta-feira, alta noite (Acto III); e à sexta-feira D. Madalena casou-se pela primeira vez; à sexta-feira viu Manuel pela primeira vez; à sexta-feira dá-se o regresso de D. João de Portugal; à sexta-feira morreu D. Sebastião, vinte e um anos antes.

- A numerologia parece ter sido escolhida intencionalmente. Madalena casou 7 anos depois de D. João haver desaparecido na batalha de Alcácer Quibir; há 14 anos que vive com Manuel de Sousa Coutinho; a desgraça, com o aparecimento do Romeiro, sucede 21 anos depois da batalha (21= 3 x 7).

O número 7 é um número primo que se liga ao ciclo lunar (cada fase da Lua dura cerca de sete dias) e ao ciclo vital (as células humanas renovam-se de sete em sete anos), representa o descanso no fim da criação e pode-se encontrar em muitas representações da vida, do universo, do homem ou da religião; o número 7 indica o fim de um ciclo periódico.

 O número 3 é o número da criação e representa o círculo perfeito. Exprime o percurso da vida: nascimento, crescimento e morte. O número 21 corresponde a 3 x 7, ou seja, ao nascimento de uma nova realidade (7 anos foi o ciclo da busca de notícias sobre D. João de Portugal e o descanso após tanta procura); 14 anos foi o tempo de vida com Manuel de Sousa (2 x 7, o crescimento de uma dupla felicidade: como esposa de Manuel e como mãe de Maria;  21 anos completa a tríade de 7 apresentando-se como a morte, como o encerrar do círculo dos 3 ciclos periódicos.

 O número 7 aparece, por vezes, a significar destino, fatalidade (imagem do completar obrigatório do ciclo da vida), enquanto o 3 indica perfeição; o 21 significa, então, a fatalidade perfeita.

- Maria vive apenas 13 anos. Na crença popular o 13 indica azar. Embora como número ímpar deva apresentar uma conotação positiva, em numerologia é gerado pelo 1 + 3 = 4, um número par, de influências negativas, que representa limites naturais. Maria vê limitados os seus momentos de vida.

Frei Luís de Sousa-Tempo

 Tal como o espaço, também o tempo se fecha e concentra.
 Inicialmente amplo e vasto (21 anos).
·      1578 – batalha de Alcácer Quibir.
·      +7 – anos de buscas por parte de Madalena.
·      +14 – segundo casamento / +13 nascimento de Maria
·    

No presente, a peça passa-se numa sexta-feira à tarde, 21 anos após a batalha de Alcácer Quibir. Passam oito dias desde o incêndio (noite de sexta para sábado), é de novo sexta-feira.
Toda a acção dramática se passa “Hoje”, o dia em tudo se concentra: por um lado, Madalena teme esse dia; por outro lado, D. João quer chegar ali “Hoje” (é o dia em que faz 21 anos que ocorreu a batalha).

Em síntese, podemos dizer que a acção, espaço e tempo convergem e concentram-se progressivamente, até à tragédia final.

Frei Luís de Sousa- Espaço

 O espaço situa-se em três lugares: o palácio de Manuel de Sousa Coutinho (acto I), palácio de D. João de Portugal (acto II) e a capela / parte baixa do palácio (acto III).

            A mudança do ato I para o II é provocada pelo incêndio e o espaço tende a concentrar-se. O acto I envolve um espaço aberto, com amplas janelas, luz, decorado e comunica com o exterior, o que se relaciona com alguma felicidade que se vive naquele lugar.

            O ato II decorre num espaço mais fechado, mais sombrio e melancólico. Não tem janelas e as portas têm reposteiros, há grandes retratos de família, lembrando o passado. É aqui que vai chegar o Romeiro.

            No ato III, o espaço ainda é mais fechado e subterrâneo, não há janelas e há pouca portas. Não há decoração. Na capela não há decoração, há apenas um altar e uma cruz, símbolos de sacrifício e de morte.

            Em suma pode dizer-se que, à medida que a ação avança e se torna mais trágica, o espaço é mais fechado e opressivo e aniquilador das personagens.

Frei Luís de Sousa- Personagens


Madalena de Vilhena

É uma heroína romântica, vive marcada por conflitos interiores e pelo passado.
Os sentimentos e a sensibilidade sobrepõe-se à razão e é uma mulher em constante sofrimento.
Crê em agoiros, superstições e dias fatais (a sexta-feira).
É uma sofredora, tem um amor intenso e uma preocupação constante com a filha Maria, contudo coloca a cima de tudo a sua felicidade e amor ao lado de Manuel  de Sousa.
Mesmo o seu amor à pátria é menor do que o que sente por Manuel.

Manuel de Sousa Coutinho

É o típico herói clássico, dominado pela razão, que se orienta por valores universais, como a honra, a lealdade, a liberdade;
É um patriota, um português às direitas, forte, corajoso e decidido (o incêndio).
Bom marido, pai terno, não sente ciúmes do passado e não crê em agoiros.


Maria de Noronha

É a mulher-anjo dos românticos (fisicamente é fraca e frágil; psicologicamente é muito forte).
Nobre, de inteligência precoce, é muito culta, intuitiva e perspicaz. Muito curiosa, quer saber tudo... É uma romântica: é nacionalista, idealista, sonhadora, fantasiosa, patriota, crente em agoiros e uma sebastianista.

   
D. João de Portugal

 Nobre cavaleiro, está ausente fisicamente durante o I e o II actos da peça. Contudo, está sempre presente na memória e palavras de Telmo, na consciência de Madalena, nas palavras de Manuel e na intuição de Maria.(é um espectro; um fantasma).
            É sempre lembrado como patriota, digno, honrado, forte, fiel ao seu rei; quando regressa, na pele do Romeiro é austero e misterioso, representa um destino cruel, é implacável, destrói uma família e a sua felicidade, mas acaba por ser, também ele, vitima desse destino. Resta-lhe então a solidão, o vazio e a certeza de que ele já só faz parte do mundo dos mortos (é “ninguém”; Madalena não o reconhece; Telmo preferia que ele não tivesse voltado, pois Maria ocupou o seu lugar no coração do velho escudeiro).
            D. João é uma figura simbólica: representa o passado, a época gloriosa dos descobrimentos; representa também o presente, a pátria morta e sem identidade na mão dos espanhóis  e é a imagem da pátria cativa.


Telmo Pais

É o velho aio.
É o confidente de Madalena e de Maria.
Fiel, dedicado, é o elo e ligação entre as duas famílias (os dois maridos de Madalena).
É a chama viva do passado que alimenta os terrores de Madalena.
É muito crítico, cria juízos de valor.
Vive num profundo conflito interior, pois sente-se dividido entre D, João e Maria, não sabendo o que fazer.
É um sebastianista e sofre muito pela sua lealdade.


Frei Jorge

Irmão de Manuel de Sousa, representa a autoridade de Igreja.
É também confidente de Madalena, pois é a ele que ela confessa o seu "pecado": amou Manuel de Sousa ainda D. João era vivo.
É um uma figura moderadora, que procura harmonizar o conflito, modera os sentimentos trágicos. Acompanha sempre a família, é conciliador, pacificador e impõe uma certa racionalidade, procurando manter o equilíbrio no meio de uma família angustiada e desfeita.

Frei Luís de Sousa- Alguns Apontamentos

 Primeiro ato - decorre no palácio de D. Manuel de Sousa Coutinho

- O ambiente leve e exótico revela o estado de espírito da família (feliz no geral);
- Inicia-se um acto com um excerto d’Os Lusíadas, mas precisamente o excerto de
Inês de Castro, em que afirma que o amor cega e condena a alma ao sofrimento;
este excerto é lido por D. Madalena de Vilhena, mulher de Manuel de Sousa
Coutinho;

- Telmo, o fiel escudeiro da família, entra em cena e ambos discutem sobre Maria,
filha de D.Madalena e Manuel de Sousa Coutinho;

- Os medos de D.Madalena em relação ao regresso do ex-marido (D.João de
Portugal, que nunca regressou da batalha de Alcácer-Quibir) reflectem-se na
protecção da sua filha em relação ao Sebastianismo (se D.Sebastião voltasse, o
seu ex-marido também podia), um tema na altura muito discutido;

- Maria é considerada muito frágil (doente; possui tuberculose não diagnosticada),
e Telmo, que já fora escudeiro de D. João, incentiva-a a acreditar no
Sebastianismo, o que ela abraça fortemente apesar do o desaprovar sua mãe;

- Por fim chega com D. Manuel, um cavaleiro da nobreza, que informa as
personagens da necessidade de movimentação daquela casa, porque os
“governantes” (na altura Portugal estava sob o domínio espanhol) viriam e
desejavam instalar-se em sua casa;

- O acto acaba com D. Manuel a incendiar a sua própria casa, como símbolo de
patriotismo, incendiando também um retrato seu (simboliza o inicio da
destruição da família), movendo-se a família para o palácio de D. João de
Portugal (apesar dos agouros de D. Madalena).

 Segundo Acto - decorre no palácio de D. João de Portugal

- O ambiente fechado, sem janelas, com os quadros grandes das figuras de D.
João, Camões e D. Sebastião revelam uma presença indesejada e uma família
mais abatida (algo está para vir);

- D. Madalena apresenta-se muito fraca; com a chegada de D. Manuel (que teve de
fugir devido à afronta aos governantes) e a indicação de que estes o tinham perdoado, D. Madalena fica mais descansada, mas ao saber por Frei Jorge, um
frei do convento dos Domínicos, que este terá que partir para Lisboa para se
apresentar, fica de novo desassossegada;

- D. Manuel parte para Lisboa na companhia de Maria e Telmo, deixando em casa
D. Madalena e Frei Jorge;

- Aparece um Romeiro que não se quer identificar ao princípio, mas dá indícios
de ser D. João de Portugal, que voltaria exactamente 21 anos depois da batalha de
Alcácer-Quibir (7 para procurar o corpo + 14 casamento de D. Madalena e D.
Manuel);

sábado, 6 de dezembro de 2014

Se eu fosse um peixe... Peixe Mandarim (exemplo)

      Começo por apresentar o meu retrato psicológico e alguns dos meus traços físicos, capazes de compor a minha existência enquanto ser humano.
     “O meu nome é ...; um nome bastante vulgar, mas que contém um grande valor para mim.” …        Poderia continuar a citar pequenas frases do meu autorretrato, mas todos sabemos que essa matéria não interessa aos peixes. Por isso, serei um pouco mais objetiva, dizendo que me observo como uma adolescente dentro dos parâmetros normais, com uma personalidade bastante forte, mas também com alguns defeitos. Como diria o Padre António Vieira, no Sermão de Santo António aos Peixes, “Ou é porque o sal não salga, ou é porque a terra não se deixa salgar”, querendo com isto transmitir a imagem de que o homem tem imensos defeitos que merecem a sua crítica. E de certa maneira, é o que eu mostro perante os vossos olhos, com estas palavras que simbolizam os meus defeitos, tais com a teimosia, impaciência e o perfeccionismo desmedido. Também o querer lutar demasiado por certos direitos, por vezes, leva-me a cometer certos erros, que não considero dignos. Mas se o meu ser apenas contemplasse defeitos, jamais me poderia comparar a um peixe, para conseguir alguns dos louvores que também o padre lhes apontou, criticando a não existência dos mesmos nos homens. E por essa razão, digo-vos de igual modo, certas qualidades que na minha opinião, também merecem simples louvores. Perguntais quais são? Então, acho que sou uma pessoa bastante persistente que nunca desiste dos seus objetivos, colocando muitas vezes a coragem à frente do caminho que percorro nesta vida, onde é constantemente necessário saber ultrapassar determinados obstáculos. Sou um ser sincero e honesto, simpático e amigável, e também um bom ouvinte.
     Posto isto, chamo à descrição o Peixe-Mandarim. E podereis questionar o porquê desta analogia… mas tal resposta mostrarei já de seguida, com a análise das suas características gerais.
     Começando por comparar a sua adaptação ao clima tropical e a meios de água salgada. Eu também me considero uma pessoa que se adapta facilmente a qualquer grupo de amigos, pois sou extrovertida e capaz de me relacionar em ambientes onde exista variedade de personalidades. Ambos somos pequenos, sendo ele mais do que eu (mede cerca de seis a dez centímetros de comprimento). Claro que também temos diferenças que existem no facto de ele viver escondido em fendas nos recifes de coral e alimentar-se de pequenos animais marinhos que passam próximos do seu esconderijo conseguindo apenas conviver com indivíduos da mesma espécie.
     Nesse aspeto, acho que somos bastante diferentes, dado que eu não consigo viver isolado e sem convívio com pessoas que diferem nas suas personalidades. Mas pronto, existem outros traços que têm uma certa parecença tal como a sua timidez e exuberância (embora a minha não seja tão elevada).
     Este peixe apresenta um revestimento onde não habitam escamas, isto é, possui uma pele suficientemente grossa, capaz de o proteger de todos os perigos, tais como pontas agudas presentes nos recifes de coral. Também possui cores bastante fortes, brilhantes e apelativas, que constroem um mecanismo de auto defesa em relação aos predadores. Este mecanismo completa-se com os seus longos espinhos das costas que, ao menor sinal de perigo, são eriçados fazendo-o parecer maior do que realmente é.
     É estranho pensar acerca da presença de uma possível analogia, mas vejamos: eu sou um pouco tímida em certas circunstâncias, mas quando o perigo espreita, eu enfrento-o com toda a coragem e defendo a minha posição em todos os sentidos. Em relação à sua pele grossa que o protege de certos perigos, também o meu caráter é suficientemente forte e capaz de sobreviver a quase todos os perigos e maldades que me são apresentados.
     Também este peixe tem uma característica que o faz estar em permanente alerta em relação aos predadores do seu meio: os seus olhos projetados para fora como grandes saliências. Tal como os meus, que também estão em constante alerta, tendo em conta não só os perigos mas também todas as emoções que com eles consigo transmitir. Existe ainda uma particularidade neles: o facto de não possuírem pálpebras nem canais lacrimais, a água salgada é a responsável pela limpeza dos seus olhos. No que diz respeito a este assunto, acho que existe uma certa comparação tendo por base o facto de todo o ser humano aprender com os seus erros e, tal correção se realizar somente quando os nossos próprios olhos enxergam a realidade e percebem que algo não está correto e é necessário mudar, isto é, limpar a mente de todos os defeitos apresentados, e procurar uma nova resposta na realidade instituída.
     E pronto, não somos almas gémeas, mas continuo com a ideia de que “Se eu fosse um peixe… seria o Peixe-Mandarim”!





Padre António Vieira


O padre António Vieira é um expoente da língua portuguesa do qual, várias vezes, se tentou reunir toda a vasta obra. Esta, finalmente, está disponível, cumprindo-se assim o objetivo primeiro da equipa internacional de 52 peritos liderada por José Eduardo Franco e Pedro Calafate. "Esta coleção destina-se ao grande público", dizia José Eduardo Franco, quando se começou a publicar a obra de Vieira em abril do ano passado. "O nosso maior objetivo é democratizar o Padre António Vieira, cujos textos devem poder chegar a toda a gente." São trinta volumes, quinze mil páginas em que podemos contactar de novo com o pensamento e o vigor da linguagem do sacerdote, do missionário, do pregador régio, do diplomata e, sobretudo, o defensor dos oprimidos. O "padre António Vieira era um universalista que, além de nos ensinar a tolerância e a inclusão, lutou contra a segregação e a opressão", sublinhou José Eduardo Franco na apresentação da obra. Denunciou as injustiças do seu tempo, lutando pela abolição da escravatura sem se acobardar diante dos poderosos que enriqueciam à sua custa. Atreveu-se mesmo a afrontar a Inquisição, acusando-a de sufocar o país pelo medo – e só escapou às suas garras graças à proteção de D. João IV. Após o falecimento do rei, valeu-lhe o Papa, de quem conseguiu a anulação da sentença da Inquisição que o tinha condenado em 1967 e lhe concedeu a imunidade perante qualquer tribunal, ficando apenas dependente do Tribunal Romano. Apesar de muitas das iniquidades denunciadas pelo padre António Vieira se terem entretanto mitigado, as suas palavras continuam, infelizmente, atuais. Ontem como hoje, o peixe graúdo continua a alimentar-se do miúdo, com a complacência e insensibilidade da generalidade das pessoas. Os príncipes, "em vez de guardarem os povos como pastores", continuam a roubá-los "como lobos", mantendo-se atualíssimas as palavras do Sermão do Bom Ladrão, proferido em 1655 na Igreja da Misericórdia, em Lisboa. Quase quatrocentos anos depois, é um outro jesuíta que nos nossos dias ergue a sua voz para defender os oprimidos e explorados do nosso tempo: o Papa Francisco. Ambos são vozes incómodas que muitos tentam silenciar. Mas a sua obra permanecerá.

FERNANDO CALADO RODRIGUES