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terça-feira, 23 de abril de 2019

domingo, 17 de março de 2019

CONTRARIEDADES


Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa de um jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras exceções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingênuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a reclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!


domingo, 10 de março de 2019

Deslumbramentos e De Tarde


Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!...

Em si tudo me atrai como um tesouro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de ouro
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina...
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!...

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos - as rainhas!

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'



De Tarde
Naquele «pic-nic» de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde (1855-1886)
O Livro de Cesário Verde

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Discurso Epistolar e Prosa Poética

Cartas trocadas entre Simão e Teresa

1.ª carta: comunicação da hipótese de Teresa vir a ser encerrada no convento; promessa de fidelidade.

2.ª carta: informação de que Teresa já sabe o que se passou com os criados de Baltasar (emboscada); pedido de confiança nela.
3.ª carta: relata a sua entrada no convento, mostra-se firme e faz um apelo ao amor de Simão.
4.ª carta: apelo à fidelidade do amor e à fuga do convento.
5.ª carta: pede a Simão que vá para Coimbra e desabafa sobre a corrupção que reina no convento.
6.ª carta: pede a Simão que não vá para Coimbra, com receio de ser transferida para outro convento mais rigoroso.
7.ª carta: escreve esta carta como se fosse à última da sua vida, comunica o desejo de matar Baltasar e despede-se de Teresa.
8.ª carta: informa que está à par dos acontecimentos, fala da morte como o fim terreno mas também como a possibilidade de se encontrarem no Céu.
9.ª carta: Simão informa Teresa de que há possibilidade de salvação, pois não vai ser enforcado. Alude ao destino que os une e pede-lhe para não morrer.
10.ª carta: monólogo em que Simão se auto-analisa. Aumenta a qualidade da prosa poética.
11.ª carta: Teresa pede a Simão que aceite os dez anos de cadeia.

12.ª carta: Simão informa Teresa de que aceita o degredo.
13.ª carta: Teresa informa Simão de que vai morrer e pede-lhe perdão. Despede- se dele até ao Céu.
14.ª carta: escrita nos últimos momentos da vida, Teresa recorda os projetos passados. Alude ao fatal destino e confessa que já o vê no Céu.

                                     As cartas cumprem as funções seguintes:
  -Servir de elo entre os dois amorosos;
  -Informar o destinatário sobre os acontecimentos;
  -Comunicar decisões tomadas;
  -Persuadir o destinatário a adotar determinadas atitudes;
  -Autojustificar os atos do destinador;
  -Exprimir sentimentos.


domingo, 20 de janeiro de 2019

domingo, 6 de janeiro de 2019

Soneto da Separação


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente


Vinicius de Moraes



Rap do Frei Luís de Sousa

I
Era uma vez uma família, bem organizada:
Pai, mãe, filha e criado, feliz
Que morava num palacete em Almada.

II
Ela, Madalena, tinha um receio
Qu’o primeiro marido regressasse d’Álcáçer Quibir
E lhe estragasse o enleio.

III
D. João de Portugal era o nome que temia,
Pois de quem gostava mesmo
Era do Manuel e sua filha Maria.

IV
O criado Telmo não a fazia esquecer.
Amava o seu amo, D. João,
E alimentava a ilusão de o  tornar a ver.

V
Entre medos e terrores, lá vivia o dia a dia.
Com agoiros e presságios, rodeada dos amores…
Era feliz por um lado, mas pelo outro sofria.

VI
Nesta altura Portugal estava entregue aos espanhóis.
Manuel era patriota e o seu maior desejo
Era mandá-los a todos pastar caracóis.

VII
Quando alguns deles quiseram hospedar-se em sua casa,
Preferiu incendiá-la, transformou-a numa brasa.

VIII
Então foram habitar o antigo palacete
De D. João de Portugal,
O marido ausente.

IX
Vivo ou morto, onde estaria
Ao final de tantos anos?
E se ele regressasse e lhe estragasse os planos?

X
Mas um dia disfarçado de romeiro
Ele lá voltou. Esteve no cativeiro,
Em Jerusalém, mas lá ele não ficou.

XI
Ao regressar, D. João destruiu a união d’uma família feliz.
O casal foi p’ró convento
E algo de muito mau aconteceu à petiz.

XII
Maria, esta filha muito amada,
Foi a sua maior vítima.
Ficou sem o pai e a mãe, e tornou-se ilegítima.

XIII
Ao ver-se desamparada e já sem ninguém no mundo,
Morre bem envergonhada, num sofrimento profundo.

XIV
Assim acaba esta história de triste memória.
Manuel é Frei Luís de Sousa,
E não sei se mal ou bem,
Romeiro, quem és tu?
Eu sou ninguém, ninguém, ninguém…

Destino


terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Elementos românticos e clássicos em Frei Luís de Sousa

Elementos românticos em Frei Luís de Sousa

- Título da peça
- Crença no Sebastianismo
- Patriotismo/Nacionalismo
- Religiosidade ( catolicismo)
- Individualismo
- Tema da morte
- O final da peça
                                                                              A Linguagem
- Tom quase coloquial /fluente
- Abundância de pontuação (........................; ............................;...........................)
- Elipses(omissão de palavras); repetições
- Ausência do verso como língua dramática
                                                                  contrário

                                                                                À linguagem altiva, rebuscada, complexa e abstrata do teatro clássico



Elementos clássicos em Frei Luís de Sousa

- Elementos trágicos

- Lei das três unidades 

- Personagens sublimes 

- Número reduzido de personagens